Bem vindos a Infâmia.

Apenas um local de expressão pseudo literária.

domingo, 6 de maio de 2018

MAR DE FLORES

Entre tantos anseios
Caminhos do meio
Andava entre portas abertas
Por breves devaneios
Em ruas úmidas da madrugada
Com o cheiro bom do vinho

Nesse caminhar dolente
Um olhar distante
Um sorriso atraente
Uma alma calcinante
Sonho inquietante de quem
Sempre será errante

Na escuridão de seu rosto
Me perco em devaneios
Pois entre palavras e sonhos
Se escondia um soneto

Das flores de abril me restam um olhar
Blues na vitrola, dois uísques no bar
Esse vaso febril que encanta a maré
Com ternura áspera reconhece quem é

Numa dança de roda me faz juvenil
Ganhando aos poucos esse lindo ardil
mil rosas atendem ao chamado então,
em chamas, enfrente, abre mais um botão

O respirar reticente que atravessa o olhar
Por prazer, plenitude me fecho então
Tua alma resplandecente, indica o lugar

Seu toque navega em um som violão
Beijo cálido se perde em correnteza ao luar
Sem medo ou angústias no caminhar do sertão

terça-feira, 1 de maio de 2018

ON THE ROAD


Eu ando no vazio da multidão,
Procurando a mim mesmo entre latas,
Entulhos, garrafas, caixas de papelão
Doces aromas vindos da sala
entre idas e vindas da escuridão

Lágrimas em devaneio por brisas distantes ,
Entre semáforos fechados ao redor de ti
Se perdem em madrugadas de pensamentos errantes
Como andarilhos descalços buscando o que vi
Tudo em mim ecoa em respiros ofegantes
Por inveja dos passos que desnudam um por vir  

Vejo silêncios incomodarem em doçura agonizante
Mãos tremulas que buscam mais um café
Certezas fibrilam no badalar do relógio tocante
Um sol que surge sem calor e sem fé,

E por tudo me falta, parte da alma que sobra
por uma lembrança de criança malfadada sorri
o toque de esperança de uma tristeza que cobra,
no limiar da existência percebendo, envelheci

Abandono a juventude com um sorriso no rosto,
Ouvindo o som de um violão num bailar facundo
Acelero nas curvas no final da tarde por gosto
Apenas para sentir a imortalidade daquele segundo

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

HOMENAGEM A EPIFANIA ESCOLAR

A dona do poema abaixo é um ser humano brilhante, com tiradas fantásticas e um senso de humor ímpar. Acho que vale a pena a publicação.


domingo, 20 de julho de 2014

POEMA SOBRE O TEMPO



Vejo velho vento de minha sacada
Brisa gelada de um prenúncio ruim
Calafrio sombrio de minha´lma cansada
Noite´scura que chega na tarde sem fim

Olhos correndo sobre os riscos espalha
Ao som ritmado de estampidos assim
Vidros tremendo que o vento chacoalha
Urina do cão que respinga em mim

O tempo esfria e o meu ódio fornalha
Ribombar dos trovões e um clarão Serafim
Gelo que queima e meu coração se espalha
Destruindo meus sonhos e cobrindo o Jardim

Tempo que pesa em minhas costas armada
Cicatrizes eternas que cheiram a jasmim
Nuvens se abrem e o mau agouro se amarga
Gordo Velho maldito de alma chinfrim

Nevoeiro se estende aos meus pés em mortalha
Meus olhos endurecem sem pena de mim
Horizonte bravio que me corta em navalha

Meus punhos em riste prontos no fim.


domingo, 1 de maio de 2011

Réquiem para Mel


Não foi uma questão de escolha. Foi uma profusão de coincidências que em tramas elaboradas que me levaram a você. Coincidências que me trazem uma melancolia sem proporções.

Foram seus olhos, seu sorriso espontâneo, sua alegria em viver e experimentar o máximo que me seduziu. Você já tinha me envolvido com toda a sua inspiração e quando me dei por conta não havia como escapar. Você não havia ficado surpresa quando me apaixonei por você. A malícia do canto esquerdo de seu sorriso acabavam comigo.

Você foi a melhor ouvinte que se podia ter. Eu nunca me sentia sozinho. Era como se todas as minhas brincadeiras de infância retornassem junto com a inocência de tempos perdidos. A alegria despreocupada de raios de sol que atravessava as folhas do grande carvalho que ficava ao fundo da casa de seus pais. Um retorno para um local sem medo e quente com seus braços em volta de meu corpo.

Escuto seu riso ainda carregado pelos ventos quentes de minha memória, provenientes de algum lugar do Pacífico. Acreditávamos que estar em seus braços era a única certeza de que e podia contar.

Amor e devoção juvenis que deveriam nos levar por todos os lados e nos unir em um paraíso terreno. Mas o paraíso não é para todos.

Você tinha asas e não poderia viver confinada a um amor que apenas podia oferecer a você ele mesmo. Alçou vôo. Conheceu outros lugares. Outras pessoas. Dividiu sua alegria e seus sorrisos com todos que haviam ficado a sua volta. Tornou-se grande naquilo que fazia de melhor. E mesmo assim aquilo não era o suficiente.

Conheceu outro alguém. Enquanto eu me perdia em memórias você prosseguiu. Viveu o máximo e foi feliz. E eu sou feliz por sua vida ter sido repleta de plenitudes. Mas as sombras do tempo nunca são justas.

Agora você se foi. E eu não sei mais o que fazer para continuar. Estou velho. E dentro de minha solidão não acho o sentido das coisas. Toco sua mão fria em seu ultimo sono. Ainda lembro-me de seus beijos úmidos e caricias apaixonadas de um verão qualquer. Sinto sua falta. Não das coisas que aconteceram, pois por elas eu sou grato.

Sinto falta das coisas que não aconteceram. Das conversas que deixamos de ter. Das brigas por motivos ridículos que poderíamos ter tido diversas vezes. Pelos filhos que não aconteceram. De tudo aquilo que estava contido em uma promessa silenciosa que fazíamos enquanto nos abraçávamos e nos amávamos na beleza de uma inocência ignota. Poderíamos ter tudo. Ser tudo e por medo nos calamos.

Prossigo. Sem ar. Sem esperança. Sem alegria. Desprovido de alma. Mas piores serão meus dias por prosseguir sem você. São as lágrimas silenciosas que escorrem pelos meus olhos cansados, minha face enrugada e com a barba para fazer que te faço essa ultima homenagem. Vou te amar para sempre.

Em silêncio.

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domingo, 1 de agosto de 2010

Memórias de Lisboa




Descia com tranqüilidade pela estreita ladeira da Rua do Salitre. Um domingo qualquer com ar gelado e poucas pessoas na rua. Aprendi a gostar do sotaque melodioso dessa gente. Poemas passaram a ter um gosto adocicado quando recitados em músicas e sarais desse lado do Atlântico. Depois de alguns anos eu percebi que a poesia era um aspecto genético da alma desse povo. A língua, a ternura na forma de se pronunciar as palavras, realmente passou a me comover na velhice.
Algumas janelas se fecham enquanto caminho. Claro. Não sou daqui. Se fosse, provavelmente estaria na missa dominical a essa hora da manhã. Mas o ato de caminhar é mais forte do que convenções sociais.
O ar frio intensifica a saudade de casa. Minha mãe me dera o livro de Hermann Hesse para ler enquanto estivesse fora. Algumas lágrimas vertiam quando pensava nessas coisas. Ela havia dito que esse livro significava muito para ela. Mostrava visões luminosas da infância, passagens e dúvidas da adolescência e as derrotas da vida adulta.
Não me lembro qual havia sido o início da conversa com ela, eu era apenas um menino que ainda corria os olhos por livros e me enclausurava em meus próprios pensamentos. Eu não gostava de dramas. Sempre tinha algo haver com perdas e derrotas e essas eram coisas que nunca faltaram em minha vida. Perguntei qual havia sido a pior derrota que ela já havia lido.
O olhar cansado de quem normalmente ria da inocência se maravilhava com as perguntas inesperadas desse fedelho curioso que não largava da barra de sua saia. Ela respirou fundo e olhou para a porta da cozinha, como se remexesse em pensamentos que estavam guardados na velha caixa de mogno, no fundo de seu guarda roupa.
_ Romeu e Julieta.
_ Sério?
_ Não... Claro que não.
Rimos juntos.
_ Não sei meu filho. Eu já li muita coisa. Demian foi um livro especial para mim. Eu havia lido justamente quando eu sai de Minas Gerais para vir para São Paulo. Não havia sido fácil.
Ela respirou profundamente e continuou. Parecia falar para si própria.
_ Precisava terminar a faculdade e conseguir emprego. A solidão dentro da cidade grande pode ser muito cruel às vezes. Era uma época triste. Muitos dos meus amigos haviam sido presos e levados na calada da noite, gente que dormia e não amanhecia. Vim terminar engenharia na FAAP.
Esperei ela continuar. Ela havia se perdido novamente no passado. Respirei fundo.
_ Demian então?
_ Se você se interessa por essas coisas, devia tentar O velho e o Mar de Hemingway.
Estava passando nesse momento em frente da Pensão 13 da Sorte e num relance conseguia ver a imponente fachada da embaixada da Espanha a uns quinze metros. Entrei na Avenida Liberdade e comecei a ir cada vez mais rápido. O vento frio que corria pelas densas árvores da avenida começara realmente a me incomodar. Queria chegar a Estação do Rossio antes do meio dia.
O sol enganava enquanto mantinha o passo firme com minhas lembranças. A melancolia de Demian em seu caminhar da vida, sempre com os olhos virados para uma musa do passado e a derrota do ser humano em suas mais profundas condições e convicções, figurados nos restos mortais de uma carcaça de peixe. É. Nunca vou conseguir concorrer com isso.
_ Sinto falta do Zebrão.
Aquela frase poderia ser qualquer coisa, quando retirada de seu contexto. Lembro que ela ainda continuava a falar para si própria.
_ Éramos grandes amigos. Quando ele foi preso. Muitos ficaram com medo de tentar procurá-lo. Após o AI-5, qualquer coisa podia ser interpretada errada e você... Ela abaixara os olhos procurando algo.
_ Quando eu cheguei aqui em São Paulo. Liguei para sua vó para avisar que havia tudo ocorrido bem na viagem. Foi quando ela me contou que o Zebrão havia sido preso. Chorei durante vários dias. Éramos pobres e não tínhamos ninguém com quem contar.
Acabo de passar em frente à Cafeteria Palladium e cruzar a calçada da Glória. Aumenta o movimento de pessoas nas ruas. Poderia pegar um metro daqui, mas acho que estou perto. Vejo a praça dos restauradores e a sensação de vazio volta calar minha boca e me deixar mais macambúzio do que antes. A arquitetura dos prédios são um espetáculo de encher os olhos e a limpeza das ruas impressiona. É nessas horas que eu percebo o quanto estou longe de casa.
Ainda consigo escutar sua voz em minha cabeça. Uma sombra do passado que insiste em falar quando a solidão me cala diante do mundo.
_ Havia se passado alguns meses quando recebi um telefonema da mãe do Zebrão no pensionato de meninas em que eu morava. Ela disse que finalmente tinha conseguido notícias dele de um delegado da cidade. Pediu para eu ir falar com ele.
_ E você foi? Você é louca?
_ Eu precisava ir...
_ E ai?
_ Ele havia sido transferido do quartel general do DOPS na rua Tutóia, que as pessoas chamavam de Tutóia Hilton, para a sede que ficava na praça Julio Prestes. Comprei um bolo na padaria Pólen na Lapa, alguns sonhos e tomei um ônibus para o centro da cidade. Meus joelhos tremiam. Não sabia o que podia acontecer, mas a inocência era mais forte.
_ E ai? Como você fez para entrar e não ficar por lá?
O movimento de transeuntes ficara cada vez mais intenso. Pessoas entrando e saindo da estação do Rossio. Entro no Largo do Duque de Cadaval e me sento nas mesas do lado de fora da cervejaria. O tempo continua frio, mas o sol brilha com força ao pino do meio dia. Peço uma Heineken e um Lombo de porco com canela e purê de maçã, que muitos indicavam ser a especialidade daquele lugar. Coloco a edição de O Labirinto da Solidão em cima da mesa e observo a multidão saindo em direção a Praça Dom Pedro IV, provavelmente em direção ao Teatro Nacional Maria II, soube que haveria uma apresentação de grupos folclóricos tradicionais as 13:30h. Retomo a pensar naquela conversa de muitos anos atrás.
Ela continuava firme em minhas lembranças.
_ Fui até a porta do prédio. Observei de um bar na praça que a entrada era na lateral do prédio. A frente estava praticamente vazia, apenas com dois camburões, um da polícia e o outro do exército. Muita gente. Entrava e saia por aquela entrada naquele dia. Fui andando com os olhos voltados para baixo, não conseguia encarar ninguém ali. Na recepção eu via uma multidão gritando agitada e várias pessoas sendo arrastadas por alguns soldados para fora quando comecei a me desesperar. Foi nesse instante que eu conheci a Heloisa.
_ Sério? Tinha que ser. Meu tom de ironia arrancara lhe risos.
Heloisa era o tipo de mulher que só seria possível em livros de aventura. Possuía a beleza das divas do cinema da década de 30. Na verdade ela me lembrava muito a Pagú, só que loira. Sotaque do interior de São Paulo e uma língua afiada. Segundo minha mãe, ela tinha acabado de se formar em direito na São Francisco, com performances notórias na OAB de São Paulo. Ela berrava sem parar com um homem gordo, um novato de camisa surrada e gravata afrouxada no pescoço que tentava barrar as pessoas ali.
_ Eu sou representante do OAB. Estou com um mandado de soltura para trinta dos vários estudantes que vocês prenderam alegando conspiração contra governo. Se o senhor encostar a mão em mim de novo eu vou te processar de tal forma que esse vai ser o seu último emprego com certeza. Disse Heloisa em um único fôlego para o gorducho.
_ Minha senhora, o delegado vai chegar aqui em algumas ho...
_ Deixa eu te contar uma coisinha, seu pracinha de merda, cinco dos estudantes da minha lista são filhos de militares de alta patente do comando sul. Me dá o seu nome e número de registro que eu vou falar diretamente com o Coronel Tavares Fonseca e você vai terminar seus dias catando bosta no curral da cavalaria em Brasília se tiver sorte.
Eu me peguei rindo sozinho quando o atendente veio trazer mais uma cerveja e o prato que eu havia pedido. Ele fez algum comentário, mas não dei atenção. O cheiro da carne de porco com aquele molho apimentado e adocicado ao mesmo tempo foi inebriante. Minha mãe iria adorar aquilo.
A piada ficava melhor quando eu me lembro das duas sentadas na mesma cozinha tempos atrás contando essa mesma história. Primeiro por que a Heloisa não conhecia nenhum comandante Tavares Fonseca. A sorte falou alto naquele momento. O delegado não se encontrava por que naquele dia ele tinha saído junto com outras diligências para uma prisão em massa de um congresso de estudantes que estava a acontecendo ilegalmente em um sítio na cidade de Ibiúna no interior de São Paulo. A lista de presos da Heloisa era de alguns estudantes calouros do direito que foram denunciados, tinham envolvimentos com os movimentos estudantis que atuavam na contestação ao regime da época. Peixes pequenos segundo ela. Ela olhou para minha mãe e a agarrou pelo braço.
_ Vocês não podem negar o direito de uma irmã visitar pobre irmão preso injustamente! Saiu ela gritando adentro do prédio.
Uma cena de insanidade completa. O desespero da minha mãe sem saber o que falar e nem porque ela estava sendo arrastada para dentro do prédio por uma mulher que ela nem conhecia. O atendente não sabia o que fazer e na indecisão permitia a entrada dela, minha mãe e mais três pessoas para dentro do corredor com paredes descascadas.
Eu parei para rir novamente. O movimento do das mesas ao meu redor se intensificava. O atendente veio me trazer mais uma cerveja, acho que era isso que ele estava falando comigo. Minha reação com minha mãe fora hilária.
_ VOCÊ ENTROU DENTRO DO PRÉDIO DO DOPS, COM A HELOISA SEGURANDO UM PAPEL QUE NÃO TINHA SIGNIFICADO NENHUM, PARA RETIRAR PRESOS POLÍTICOS EM PLENO 68? Minha cara de incrédulo e pasmo devia ser fantástica. Ela sorriu e continuou. Ela disse que a Heloisa estava possuída. Ganhava o Oscar fácil.
_ Quero os nomes da lista vocês vão esperar nessa sala e vamos trazê-los aqui para a soltura. Em meia hora vocês...
_ Qual é o seu nome e número de registro cabo?
_ Por quê?
_ Preciso anotar isso. A hora que eu perceber que os filhos do Coronel Tavares e seus amigos foram presos por engano, confundidos com elementos subversivos e maltratados dentro nesse pardieiro, eu vou precisar relatar em processo quem foi que demorou para libertar esses rapazes e as condições de maus tratos sofridos.
A famosa carteirada de advogado deve ter sido inventada por ela.
_ ALMEIDAAAA!!!
Um rapaz novo, de terno e camisa surrado entrou a passos rápidos na sala.
_ Sim senhor.
_ Traz esse bando de mer... estudantes para cá agora.
_ Eles estão no interro...
_ AGORA ALMEIDA.
_ Sim senhor.
Minha mãe levantou-se da mesa da cozinha e foi em direção ao fogão, pegou o bule e encheu o copo de café. Sentou-se e olhou novamente para o vazio. Ela não cansava de falar para si mesma, como um desabafo tardio ou apenas uma forma de não se esquecer. E eu não cansava de escutar suas histórias.
_ Heloisa se virara para mim e pedira para continuar em silêncio. Eu não conseguia soltar nenhuma palavra. Estava morrendo de medo. Pensei que ia desmaiar. Almeida voltara em dez minutos com doze pessoas para dentro daquela sala minúscula, dez homens e duas mulheres. Nunca vou esquecer o sotaque nordestino e o tom de voz rancorosa que aquele homem falara com a Helo.
_ Bom Dotora...?
_ Doutora Brigitte, por favor. Ela mentia descaradamente e voltara a assumir um ar de arrogância e superioridade que lhe parecia tão comum.
_ Bom doutora Brigite, entregue o seu papel aqui e assine as vias de soltura. Tenho certeza de que o engano será esclarecido sem maiores problemas com o Comandante Tavares.
_ Claro. Falou de forma ríspida e petulante. Virou-se para todos que estavam na sala e disse solenemente:
_ Existe um transporte esperando todos vocês lá fora. Todos andando. Vamos para casa. Nesse momento virou-se para mim e disse:
_ Marialva minha filha, ta esperando o que? Leva o teu irmão agora lá para o carro, já! Disse ela apontando para um dos rapazes que estava mancando quando veio andando trôpego, empurrado por Almeida.
_ Todos saímos pela porta principal. No momento em que todos estavam de fora, duas kombis azuis pararam rapidamente em frente a porta e empurraram todo o pessoal para dentro. Eu estava na segunda Kombi quando Heloisa viera correndo e gritando.
_ Corre macacada! Logo os meganha vão perceber o golpe e todo mundo vai se lascar. Bóra!
Era difícil acreditar que Heloisa, hoje juíza federal, falasse dessa forma e se metesse com esse tipo de coisa. Uma mulher fantástica, sem dúvida. Minha mãe contara que aquilo foi o golpe muito bem dado. Heloisa disse que havia agarrado o braço da minha mãe, pois a cara de aflição dela poderia convencer na hora. Sorte. Pura Sorte. O delegado responsável era o Matheus Puma. Figurinha carimbada da ditadura que gostava de violentar as detentas e arrancar as unhas dos outros presos com alicate. Se minha mãe ficasse ali, quando o delegado chegasse, era capaz dele querer aprontar para cima dela. Ironias a parte, hoje o filho da puta é deputado federal e tenta promover a todo custo o filho dele Puma filho. Mas o sádico estava feliz.
Mesmo com o plano de fuga idiota, a prisão dos estudantes no congresso secreto da UNE em Ibiúna, promoveu uma enorme propaganda do regime contra os “elementos subversivos” da nação. A maquina da repressão sorria com todos os dentes naquele mês de outubro.
Riamos muito disso. Quando perguntei sobre o Zebrão, ela me contou o final dessa História.
_ Ainda estava assustada dentro de Kombi que se deslocava em alta velocidade para a região da Zona Leste, quando perguntei em voz chorosa pelo Zebrão. O rapaz que saiu de lá mancando se aproximou de mim e me abraçou. Chorava copiosamente. Seus soluços fizeram com que eu o abraçasse de volta tentando acalmá-lo dizendo que o pior já havia passado. Ele disse que o Zebrão havia sido morto há dois dias. Estavam preparando o corpo para ser enterrado no cemitério da Vila Formosa, o Formosão como eles chamavam. Local onde os milicos davam fim para os corpos das pessoas mortas sob tortura nos porões do DOPS.
Foi nesse momento que eu vi os olhos cansados de minha mãe brilharem e marejarem. Seu amigo de infância havia sido morto por trabalhar numa padaria e se filiar ao sindicato dos padeiros na cidade de Belo Horizonte. Quando fora procurar ajuda do sindicato por problemas no pagamento do local onde trabalhava, o dono da padaria o denunciou as autoridades como um terrorista ligado ao movimento VPR. Sumiu sem deixar vestígios.
Em laudo oficial, a polícia soltou um memorando, dizendo que o Zebrão havia sido morto atropelado por um caminhão enquanto fugia de seus perseguidores.
A carne adocicada e apimentada desmanchava na boca. Meus colegas de Coimbra não mentiram. Essa era com certeza a carne de porco mais saborosa que eu já havia experimentado. E o purê de maçã dava um toque especial ao prato. O atendente não esperou eu pedir e trouxe a sobremesa: uma enorme tigela de fios de ovos com madalenas salpicadas de açúcar e canela.
Comi a bom gosto, paguei e voltei a caminhar em direção ao Teatro Maria II. O fado vindo da escadaria do teatro chamava uma pequena multidão de turistas para a sua porta. Já deviam ser mais de duas horas da tarde. Hoje era aniversário de minha mãe. Precisava sair para relembrar. Ao fundo a melodia do acordeom e do violoncelo tornava a voz da cantora cada vez mais sublime.
“_Ai que ninguém volta, ao que já passou, ninguém larga a grande roda, ninguém sabe onde e que andou”.

O conto acima é ficcional. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

domingo, 18 de julho de 2010

Para Elise




Manhã de sol fraco, céu cinza, vento ameno.
Olha pela janela da sacada do apartamento sem grandes pretensões. O silêncio não me incomoda mais.
Essa é a primeira vez que percebo o quanto esse apartamento é vazio. Sem móveis, sem carpete, quadros ou qualquer outra referência a gostos e tendências. Apenas paredes brancas para todos os lados, roupas sujas e amassadas jogada pelos cantos, um cinzeiro transbordando e garrafas vazias de vinho recostadas em um canto da parede. A única coisa que destoava era o colchão no meio da sala e ela.
Minha garganta esta muito seca. Vou para a cozinha com cuidado para não acordá-la. Geladeira vazia, restos de comida chinesa em caixinhas de papel. E a ultima garrafa de Casillero Del Diablo pela metade. Perfeito. Levo a garrafa para a sala e me sento no canto onde o sol ilumina com preguiça e sem força. Permaneço a observá-la.
Ela dorme um sono profundo. Sua pele se arrepia pelo vento frio da manhã que passa pela fresta da janela. Em um esforço malembe, ela desliza o braço para cima do seu rosto, protegendo as linhas de seu rosto que a luz do sol insiste em persegui-la a essa hora. “Preciso comprar cortinas”.
Um gole no gargalo da garrafa ajuda a descer o pigarro. Incrível como as curvas do lençol de seda criam um brilho nessa luz. Quem eu quero enganar? O lençol em cima de seu corpo desnudo cria um espetáculo de beleza e sensualidade. Sonhos juvenis retornam a memória de um homem velho. Um sorriso me escapa no canto da boca.
Lentamente ela se espreguiça e se vira debruço no colchão. O cabelo é um espetáculo único. Ele cai ao lado do pescoço deixando visíveis as linhas do ombro e uma pequena parte da orelha. Procuro conter o riso. Incrível o que um lóbulo beijado com suavidade pode provocar.
A noite fora curta demais para uma espera que havia sido longa demais. Nunca pensei que voltaria a me sentir assim novamente. Livre. Solto. Indeciso. Como dizia a canção na Rádio da noite anterior: “seus olhos não são verdes, mas tem a profundidade de um oceano”.
Que beijos. Nunca mais haverá beijos como os de Elise Meyer. A forma como encaixara os quadris em meu corpo parecia que ela havia nascido ali, uma simetria perfeita. O debater dos corpos, o suor, angústias e frustrações extravasadas, mentes jogadas para dentro de um lugar escuro, quente e acolhedor. Corações e mentes aceleradas em um momento em que lágrimas vertem pela mera percepção do Nirvana. A anulação do Eu. Não era paixão. Era plenitude. Sua voz rouca desfalecia como notas de uma canção a muito perdida.
Dormimos abraçados por um sono profundo. Eramos uma flor de lótus que se fechara ao mundo ao invés de abrir.
Olho novamente para seu corpo debaixo dos lençóis de seda. Tomo mais um gole da boca da garrafa. Essas são memórias que vão me perseguir através dos tempos, entre nuvens e sonhos juvenis como uma diáfana percepção da realidade. O sol passa a brilhar com mais intensidade dentro da sala do apartamento, mostrando que ele também sobrevive em tempos nublados.
Ela abre os olhos lentamente, incomodada pela claridade, sorriso no canto da boca.
_Vem... me abraça.



O Conto acima é ficcional. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.